A estreia do novo filme de Carla Camurati “Raízes do Sagrado Feminino”, que entrou no circuito agora em abril, chegou em mim como um lembrete silencioso, mas muito necessário, de (im)permanência. O filme é um documentário investigativo sobre como cinco das maiores religiões do mundo: cristianismo, hinduísmo, judaísmo, budismo e islamismo, moldaram o papel e a percepção das mulheres na sociedade ao longo da história, inclusive sobre a percepção das próprias mulheres sobre si. Busca as origens das questões de gênero e o ódio contra a mulher (essa eterna Eva) e também quais os impactos que reverberam até hoje, para a formação das culturas e das sociedades na contemporaneidade — é bastante coisa, sai mais lúcida e um também pouco lívida da sessão.

Quando comecei a escrever, queria falar de “Cinema feminino”, explorar esse gênero relegado sempre ao segundo espaço, assim como fez a Carla, assim como fez Simone (sou bem pretensiosa) — mas o tema, além de amplo demais, me soou tão gasto… Esse termo foi sendo usado de maneira tão imprudente, que acabou como um totem: acho que o zeitgeist recomeçou em resposta ao movimento Me Too há mais ou menos 10 anos, depois foi sendo encapsulado pelo marketing e pela indústria cinematográfica, especialmente a norte-americana, que brada aos 4 ventos de que agora as mulheres têm (finalmente) voz, ou como se costuma dizer: lugar de fala. Seria terreno minado e ingenuidade minha sugerir que existe uma unidade estética ou temática entre obras feitas por mulheres — porque não existe. O que há, talvez, seja outra coisa — uma disputa por espaços, linguagens e pertencimento.

Falei de como isso aconteceu pelo lado de fora, mas em um cenário em que o cinema brasileiro vive ciclos de apagamento e retomada (uma das retomadas capitaneada por um filme de Carla, inclusive — Carlota Joaquina — já viu?) acompanhar uma diretora com trajetória consolidada voltar às telas não é apenas um acontecimento artístico, mas também político, especialmente quando se trata de realizar um filme como esse.

Num ótimo artigo, Luciana Rodrigues, Coordenadora da Pós-Graduação em Gestão de Produção e Negócios Audiovisuais da FAAP, diz que as cineastas enfrentam uma série de obstáculos que vão desde o acesso restrito a cargos de direção até a dificuldade de consolidar seus trabalhos em circuitos de exibição e premiação. O gesto de filmar, nesse contexto, ganha camadas. Não é só criação, é afirmação — se agarrar com unhas e dentes num lugar que disseram que não nos pertencia — e como isso cansa…

Diretoras brasileiras historicamente ocuparam um lugar de resistência dentro da indústria; seus filmes muitas vezes circulam menos, recebem menos investimento e enfrentam mais obstáculos para chegar ao circuito comercial. Mas ainda assim, continuam sendo feitos. E isso, por si só, já desloca o eixo da discussão: não se trata apenas de presença, mas de insistência. Cada novo projeto que chega às telas carrega também a marca de um percurso atravessado por ausências estruturais, por birra e pirraça em se fazer presente — contando histórias que nos conectem e nos identifiquem.

O novo trabalho de Camurati se insere nesse movimento mais amplo, em que diferentes gerações de cineastas seguem produzindo, tensionando e expandindo o que entendemos por “cinema feminino”. Não como um bloco homogêneo, mas como um campo em eterna disputa, especialmente nas narrativas.

E também nesse aspecto, se olharmos para fora, esse movimento não é isolado. Nos últimos anos, parte do cinema produzido em Hollywood tem deslocado o eixo das narrativas tradicionais ao colocar o corpo, o desejo e o tempo feminino no centro da cena, não mais como objeto — o barulho foi tão alto, ou talvez o prejuízo, porque esse público também gasta dinheiro, não é mesmo? — que não pode mais ser ignorado. Filmes como Babygirl, de Halina Reijn, e Cronologia da Água, de Kristen Stewart, tensionam relações de poder e intimidade a partir das experiências viscerais de suas protagonistas; enquanto The Last Showgirl, de Gia Coppola (com uma Pamela Anderson emergindo das cinzas), revisita o envelhecimento feminino, escancarando e (até certo ponto) subvertendo a lógica de descarte que historicamente marcou (e ainda marca — sejamos honestos) a indústria audiovisual — do norte e do sul.

Em comum, não há um estilo único, mas uma mudança de eixo: essas histórias já não observam mulheres, são atravessadas e conduzidas por elas. Inclusive, há uma tendência crítica clara desde 2024 nas premiações: vários filmes colocaram a autonomia do corpo feminino no centro da narrativa, refletindo tensões sociais contemporâneas — sejam físicas, psicológicas ou profissionais — e muitas vezes ao mesmo tempo. Lembram de A Substância, de Coralie Fargeat, com a outra fênix Demi Moore? As mulheres, também na ficção, já não aguentam mais existir (das maneiras antigas) nesse mundo.

Nesse sentido, o novo filme de Carla Camurati não surge isolado, mas em diálogo com um movimento mais amplo, ainda que atravesse contextos muito distintos. No Brasil, onde as estruturas de produção seguem mais restritivas, filmar sendo mulher ainda é, antes de tudo, um gesto de permanência, resistência e existência.

Talvez o ponto não seja perguntar, como eu fiz antes de começar a escrever, o que define um “cinema feminino”, mas sim observar como essas obras, em suas diversidades, reconfiguram o próprio olhar sobre o mundo — e sobre quem (ainda) tem o direito de narrá-lo.