Em 1985 Marty McFly embarcou em um DeLorean para descobrir como seria o passado – e, de quebra, imaginar o futuro. Preciso deixar todo mundo na mesma página (ou no caso, tela) – De Volta para o Futuro é uma icônica trilogia de ficção científica e comédia dos anos 80, dirigida por Robert Zemeckis. A história acompanha o adolescente Marty McFly (Michael J. Fox) e o cientista “Doc” Brown (Christopher Lloyd) viajando através do tempo em um carro DeLorean modificado. Assista, juventude – é arrebatador.

Bom, quarenta anos depois, parece que o cinema resolveu fazer o caminho inverso: em vez de acelerar rumo ao desconhecido, estacionou em um lugar bastante familiar. Basta olhar para a programação nesses últimos meses, temos desde O Diabo Veste Prada que ganhou uma sequência quase vinte anos depois. Moana, lançado em 2016, retorna em live action (arrisco dizer que antes mesmo de se tornar um clássico para uma nova geração), enquanto seguimos acompanhando novas versões, continuações e reboots não só nos cinemas, (quem está acompanhando Elle Woods, a adorável Legalmente Loira?) é um fenômeno que atinge todos os tamanhos de telas.

É tentador concluir que a indústria ficou sem ideias, mas como estudiosa (e consumidora voraz) de audiovisual, talvez essa seja uma conclusão rasa, até um pouco equivocada.

O cinema sempre revisitou a si mesmo, seja através de referências diretas — com citações a filmes e personagens — ou inspiracionais – são famosos os vídeos de colagens na internet mostrando as “referências” de Tarantino, algumas descaradamente parecidas. Mas é inegável que amamos (e também odiamos) quando clássicos são restaurados, grandes autores são homenageados, histórias conhecidas são reinventadas ou contadas através de outros pontos de vista – aliás, amo essa leva de contos de fadas transgressores para meninas da nova geração. Faz parte da natureza humana olhar para trás, arrisco também a dizer que isso é uma das características que nos identificam como humanos, a transmissão de memórias.

A diferença é que hoje, na minha opinião, esse movimento parece menos uma conversa com o passado para reinventar o presente e mais uma estratégia para que a gente não viva no presente. Em um mercado cada vez mais caro e competitivo, apostar em personagens que já vivem ou viveram no imaginário do público diminui riscos – não se pode negar. Um título conhecido chega aos cinemas carregando algo que nenhum algoritmo consegue fabricar do zero: a memória afetiva.

E talvez seja justamente aí que mora o fenômeno.

Vivemos cercados por novidades, toda semana surge uma nova série, um novo streaming, um novo universo compartilhado, chega ser exaustivo… Há tanto conteúdo disponível que, muitas vezes, a sensação é a de que nada permanece tempo suficiente para criar raízes, sabe? Discutir o que se viu num café com amigos, ponderar a nossa própria vida através do que vivemos pelos personagens nas telas. Será que estou exagerando? Quantas vezes resgatamos heróis e heroínas que vivem “só” no audiovisual pra reestruturar nossas próprias existências? Eu mesma faço isso, e muito.

Nesse cenário, revisitar uma história conhecida deixa de ser apenas uma escolha comercial, de certa forma também responde a um desejo do público.

Então pra resgatar a provocação feita: não, nem toda sequência nasce da falta de criatividade, algumas encontram novas perguntas para personagens antigos. Outras descobrem que o tempo transformou tanto o mundo quanto quem as assiste. Há sim continuações que ampliam universos, enquanto outras apenas repetem fórmulas. E o público entende a diferença.

O mesmo vale para os live actions, quando acrescentam uma nova camada de leitura, podem justificar sua existência. Mas, quando a principal novidade é trocar animação por computação gráfica e atores de carne e osso (por enquanto), fica a impressão de que estamos assistindo menos a uma reinterpretação e mais a um exercício de reconhecimento dos estúdios – e claro, do lucro envolvido nisso.

Talvez o sucesso dessas produções diga menos sobre a crise criativa de Hollywood e mais sobre nós – como sociedade e como seres humanos. Em tempos acelerados, voltar a um universo conhecido oferece uma sensação desejada, e de novo arrisco dizer, a mais desejada por nós: a de pertencimento. Não precisamos descobrir quem são aqueles personagens (isso exige trabalho mental, né? E como estamos cansados), pois nós já os conhecemos, e de certa forma, eles também nos conhecem – ou conhecem uma versão de nós, aquela que gostaríamos de voltar a ser.

No fim das contas, o DeLorean chamado Hollywood continua ligado, mas em vez de nos levar para imaginar o amanhã, parece cada vez mais interessado em revisitar o catálogo de ontem. De Volta para o Futuro também se vale disso, e embora seja contraditório por tudo que escrevi, são as sequências do filme de que mais gosto – o baile, o diner da cidade, os vestidos rodados… Mas, em algum momento, o filme nos lembra que é preciso voltar para a vida que se vive – no presente, caso contrário os personagens correm o risco de deixarem de existir.

A pergunta que fica não é se o cinema perdeu a capacidade de inventar novas histórias, mas por que, justamente agora, parecemos tão dispostos e disponíveis a só nos reencontrarmos nas antigas.

A vida inevitavelmente acontece no agora.