Pois é… Infelizmente, o Agente Secreto ficou sem o Oscar, muito embora tenha levado mais de 70 prêmios mundo afora, e isso é muito – isso é lindo.
Mais que lindo, porque se fosse apenas no quesito beleza – teríamos cinco, ao invés de dois títulos de Miss Universo; é beleza, mas também é indústria, é visibilidade, é também dinheiro. Eu mesma tinha pouquíssimo conhecimento no quesito misses, mas vocês sabiam que o Brasil conquistou o título em 1963, com Iêda Maria Vargas e em 1968 com Martha Vasconcellos? O que eu lembrava mesmo era da Martha Rocha, Terezinha Morango (mais ou menos) e Natália Guimarães, que foram as misses vices… As segundas colocações motivaram discussões, choro e polêmicas em suas respectivas épocas – fato é que elas ficaram, pro bem ou pro mal, marcadas na memória coletiva, a Natália especialmente na minha, pois somos contemporâneas – achei uma injustiça braba.
Bom, mas tinha intuído que isso aconteceria também com o filme do Kléber, o sentimento de injustiça pelo prêmio merecido e não recebido – tivemos sim (muitas) polêmicas, mas um
pouco diferente, digamos. Desde de que o filme foi lançado no circuito de festivais, o burburinho era imenso, saiu arrastando opiniões elogiosas e um entusiasmo eivado pelo “Ainda estou aqui”, mal estreou em casa, ganhou Globo de Ouro e teve as indicações para o Oscar, nem vamos falar da campanha do Wagner, sentando em tudo quanto foi sofá de talkshow gringo – e o carnaval? Boneco de Olinda, D. Sebastiana (e suas sósias) fazendo mandinga, essa taça do mundo é nossaaaaaa. Mas não foi… E a partir dali um sentimento meio amargo/amargurado, um burburinho chiado, “mas também, mas também, mas também” – como se perder o prêmio desse aval pra quem não gostou, não entendeu, ou ambos; agora posso falar mal, sabe? No melhor (pior) estilo #prontofalei.
Eu nem vou entrar no mérito: gostei, não gostei – meu reconhecimento é algo definitivamente dispensável. Se o filme fosse ruim, se fosse, já merecia ser laureado de ter nos colocado, mantido aliás, nos holofotes mundiais, o Cinema (com C maiúsculo) em números absolutos, movimenta dinheiro de gente grande, muito grande – PIB maior do que muita indústria pop. Além disso, o que acho algo bem mais valioso do que dinheiro (logo eu, a caprica), é que cinema agora virou assunto cotidiano, tal qual as misses e futebol – e isso lá é bom? Convivo com estudantes e eles me me contam que os pais pararam de questionar as intenções por trás de uma escolha chamada “cinema e audiovisual”, feita uns aninhos atrás no vestibular. Então, leitor, me diga você – isso é bom? Porque eu mesma vou me aprofundar em outras questões além audiovisual agora.
Fiquei pensando nas críticas pós Oscar e dois livros vieram ao meu socorro, um é o Raízes do Brasil, do pai do Chico – o Sérgio (Buarque de Holanda, com todo respeito) meio óbvio, mas nessas horas de caos na Terra, os clássicos ajudam a dirimir a espuma – e importante saber, a partir daqui é só devaneio, opinião baseada unicamente em vozes da minha cabeça, tudo bem? O livro, publicado em 1936, é uma das obras mais importantes para entender a formação histórica, social e cultural do Brasil, traz o conceito de “homem cordial” – diz que agimos enquanto nação, (pela herança social e também outros conceitos que o livro aborda), mais pelo afeto, identificação ou rejeição pessoal, do que por critérios objetivos. Bateu, doeu? Aqui, sim.
Então entendi, através dessa lente, que parte do pessoal “pegou ranço” só pelo hype, premiação, torcida ou justamente por tudo isso; as críticas viraram mais posição emocional do que análise do filme em si. Tem gente que rejeita o filme por causa do Wagner, do Kléber e/ou assunto; agora tem gente apaixonada – pelos mesmos idênticos motivos. Ou seja, o julgamento não é só sobre a obra, é sobre expectativas frustradas e também o (sempre ele) efeito manada nas redes sociais. Ufa, até aqui tudo bem? Bem, não é a melhor palavra, mas até aqui você veio comigo? Ótimo.
O outro livro que me veio à memória foi “Viva o Povo Brasileiro” do escritor João Ubaldo Ribeiro, um dos romances mais importantes da literatura brasileira contemporânea. Publicado em 1984, faz uma releitura crítica e ao mesmo tempo bem-humorada, da história do Brasil. Pra quem não leu, recomendo fortemente – mas leiam, não façam como a Fernanda Torres, que mentiu anos pro Ubaldo dizendo que tinha lido – mas não tinha. Fernanda, te amo <3.
O livro tem elementos quase mágicos, personagens que atravessam gerações, memórias coletivas que parecem vivas, situações exageradas com tom irônico – alguma semelhança com “Agente Secreto”? Ah, sério? Para… Todas essas obras reforçam a ideia de que a identidade do Brasil é complexa e difícil de definir. Quer mais? Somos também “Carlota Joaquina”, “O Quatrilho”, “Central do Brasil”, “Dona Flor”, “O que é isso Companheiro?”, “Gabriela”, “O Homem que copiava”, “Meu tio matou um cara”, “O Homem que virou suco”, “São Paulo SA”, “Rio 40 graus”, “Minha irmã e
eu”, “Eles não usam black-tie”, “Saneamento Básico”, “Ainda Estou Aqui”, a gente é tudo isso, a gente é muito mais que isso, somos narrativas que que nem foram contadas, ainda.
O que a gente precisava entender (lembra que tudo isso, apenas na minha modestíssima opinião) é que diferente da “América de cima”, nós não somos ou temos, cinematograficamente falando, “heróis oficiais”: que vendem caneca, camiseta e criam 57 sequências que viram, viraram ou virarão franquias; a gente é povo comum, que tenta de muitas maneiras se manter com a cabeça fora d’água e dançando – apesar de tudo, e talvez inclusive, por tudo. Se bem que até isso querem manufaturar, ser brasileiro virou moda fora do Brasil – caramelo tipo exportação, disse caramelo e não vira-lata.
Abrir os olhos do mundo pro que a gente tem através do audiovisual, vai fazer mal pra quem? Pra nós, garanto que não. Essa continua sendo uma opinião, de quem trabalha há mais de duas décadas com audiovisual, nos seus mais variados desdobramentos – mas ainda uma opinião, e bem consciente de que ainda falta muito, inclusive uma reorganização interna pra toda essa visibilidade não se perder por ai (por aqui). Mas estamos no caminho.
Termino parafraseando meu querido Ubaldinho – escrever aqui me dá tantos prazeres, tipo a chance de parafrasear João Ubaldo Ribeiro: Viva o povo brasileiro! Viva e brilhe muito. Seja em que lugar, cor, sotaque e gingado – sendo como for (como é), sim – viva! E muito.



Leave A Comment