Desde que comecei a escrever aqui, ando com um bloquinho na bolsa; agora vivo rabiscando pictogramas aleatórios que me façam reavivar a escassa memória – coisa meio óbvia, mas não era para mim. Óbvio porque, desde antes de o ser humano se entender como tal, registros são feitos. Muito provavelmente você já deve ter visto as pinturas rupestres da Caverna de Lascaux, uma das mais antigas (alguns pesquisadores cravam 40.000 anos) pinturas humanas catalogadas.

O audiovisual também é registro, seja documental ou ficcional – na tela se imprimem tempo e espaço, seja um tempo verdadeiro ou um que nunca existiu, num espaço totalmente inventado, como um mundo habitado por elfos e fadas – mas que bobagem a minha, não é? Todo mundo sabe como elas são: num filme que eu vi uma vez, a fada parecia… 🙂

Pois é, o audiovisual transforma os registros em realidade: podemos ver e ouvir, tornando esses registros “reais” e que, a partir disso, viram novamente outros registros – uma metalinguagem esquisita: um registro que vira filme, que vira (de novo) um registro.

Mas peço desculpas pelo devaneio. O ponto a que quero chegar é que, diferentemente das pinturas rupestres, sabemos exatamente quem fez o primeiro filme – até já falei sobre isso na minha primeira coluna – tenho uma certa obsessão pelos Lumière. Muito embora existam divergências, porque outros já haviam feito registros parecidos, os irmãos “formalizaram” a paternidade do cinema, e os historiadores foram reconfirmando isso. Sabe a série Vale o Escrito? Mesma linha de pensamento: escreveu/registrou? Então valeu. Situação absolutamente oposta à autoria dos bisões da tal caverna… Essa nunca saberemos.

Enfim, dito isso, fica o nosso combinado aqui: registrar é sinônimo de fazer audiovisual, tudo bem?

Agora, guardar, conservar e, principalmente, preservar esses registros – isso já é outro assunto, e aqui no Brasil, bem delicado.

Há algum tempo, recebi a incumbência de criar uma eletiva sobre primórdios do cinema brasileiro – falaria, obviamente, da Atlântida, e queria fazer uma aula inteira dedicada ao Grande Otelo, outra figura que me desperta uma curiosidade magnética. A primeira memória que tenho dele é uma chamada de réveillon da TV Globo: “Invente, Tente, Faça um 92 Diferente”. Quem lembra? Personalidades televisivas atuando fora do campo usual: Fátima Bernardes, séria e casada, dançava (juro que isso era inédito); Lima Duarte, sensibilíssimo, como técnico de foley; e Xuxa, no auge da sua popularidade, ostentando peruca afro e blackface – dançando e cantando “Boneca de Pixe” ao lado de Grande Otelo. Hoje, o cancelamento seria automático, mas, na época, foi um sucesso estrondoso. Vem comigo, que tem mais estranhamento…

Pois bem, pesquisando, apareceu isso – e também o primeiro filme protagonizado pelo ator: “Moleque Tião”. Só cheguei até o título porque, pasmem, o filme, datado de 1943, não existe mais. Sabemos que existiu: há registros de jornais, relatos de pessoas que foram inspiradas por ele e também da equipe técnica, mas não restou nenhuma cópia preservada.

Descobri, inclusive, um programa impressionante (para dizer o mínimo) exibido pela TV Record entre 1968 e 1971, chamado “Quem Tem Medo da Verdade?”. A televisão tem o hábito de guardar seus registros – e a internet ajudou muito a democratizá-los. Voltando ao programa, dirigido e apresentado por Carlos Manga, nele havia um júri que debatia erros cometidos pelos convidados, julgando se a pessoa em questão merecia ou não o perdão – não estou inventando; vá lá no oráculo chamado YouTube, onde você pode conferir. E, nesse momento, estou me sentindo dentro de outro programa finado (e bizarro), chamado “Acredite se Quiser” – eu realmente assistia muita televisão na infância.

Bom, mas, neste episódio do “Quem Tem Medo da Verdade?”, que teve mais de duas horas de duração, Grande Otelo estava no banco dos réus, respondendo por crimes causados pelo vício do alcoolismo. O júri era composto por personalidades míticas como Adhemar Ferreira da Silva (primeiro bicampeão olímpico brasileiro no salto triplo) e o compositor Adoniran Barbosa, além de Clécio Ribeiro, Paulo Azevedo e Sílvio Luiz – autointitulados “os provocadores”.

A defesa do ator foi feita pelo diretor José Carlos Burle, responsável por vários êxitos cinematográficos, incluindo o próprio “Moleque Tião”. Burle foi um dos fundadores da Atlântida, excelente compositor e músico, além de um grande orador.

Recomendo que assistam especificamente ao trecho em que Adhemar Ferreira da Silva diz que o filme “Moleque Tião” o inspirou a ser quem ele era e, por isso, absolveria Grande Otelo. O atleta olhando o ídolo enquanto fala – terno, intenso; é lindo…

O audiovisual molda nossa percepção de mundo, não estou exagerando – e guardar esses registros deveria ser, assim como produzir narrativas que ajudem a (nos) mostrar quem somos como sociedade, tarefa basal de uma nação. Acessar registros ajuda a caminhar com mais lucidez para um futuro que, como mostra a História, acaba se repetindo se não ficamos atentos.

Voltando ao tema, todos os filmes que concorrem ao prêmio de Melhor Filme Internacional no Oscar 2026 falam disso: registro e memória – se você é cinéfilo e assistiu a todos eles, sabe do que estou falando. Não quero dar spoilers, mas cito dois específicos: “O (nosso) Agente Secreto” e “Valor Sentimental”.

Em ambos, os registros são estruturais nas narrativas; são eles que nos conduzem aos entendimentos – ou à falta deles. Sem a existência dos registros, nos contextos em que foram inseridos, deixariam os personagens à deriva – e até arrisco dizer: os filmes não existiriam.

Discutindo o filme do Kléber (me converti em pregadora de perna cabeluda, vocês também?), uma amiga historiadora me disse que é isso mesmo.

Isso o quê, criatura?

A História existe existindo: não há um começo, um meio ou um fim – como num conto de fadas. A gente coloca tudo na linha do tempo para facilitar o trabalho do cérebro; a neurociência diz que precisamos de ordem, repetição e contorno definido, assim tudo fica mais “fácil”. Mas o trabalho arqueológico de pesquisar o passado é árduo, ardiloso e imponderável – e, ao mesmo tempo (talvez por isso mesmo), fascinante.

O que pode realmente nos ajudar nesse processo são os registros: pedaços da existência humana, que vamos costurando como dá, criando um mosaico peculiar, e tentando dar sentido pra ele – ao mesmo tempo que vivemos.

É por isso que recebi maravilhada a noticia de que filmes essenciais como São Paulo S/A, do Luiz Sérgio Person estão sendo restaurados – é a sessão Vitrine Petrobrás, o filme antológico está completando 60 anos de existência. Mas sobre ele não falo nada – não porque já tenha excedido no tamanho da coluna, mas porque existem coisas que precisam ser vistas com os próprios olhos, tá tudo ali – a grandeza, a beleza, a confusão; o caos cotidiano de quem escolheu, ou foi escolhido, pra ter essa cidade como sua – no clima de celebração, teve ainda um debate com a filha do diretor (e também cineasta) Marina Person. A plateia, lotada de jovens – muitos nascidos depois dos anos 2000, era um misto de encantamento e perplexidade sobre as motivações de Carlos (o personagem principal) dentro dessa epopeia chamada São Paulo.

O filme entra em cartaz no Espaço Petrobrás de Cinema no dia 26/02, então sugiro mais uma coisinha antes do fim: faça isso, paulistano – seja você jus solis ou “só” de coração, vai lá assistir.

Talvez você reencontre o desejo de seguir – ou não – aqui nessas terras; porque sim, o audiovisual tem esse poder, e alguns filmes (re)sistem, ainda bem.