Vá ao cinema. Talvez você ache estranha essa frase abrindo minha coluna aqui neste espaço. Soa como uma propaganda — afinal de contas, ela está dentro de um contexto, ou melhor, dentro de um espaço que é literalmente um cinema.

Mas vou tentar explicar, como um filme que começa pelo fim, (re)montando as cenas até a gente entender como tudo chegou ali.

É dezembro, e não há como discordar: neste mês existe uma histeria coletiva de urgência — disse uma amiga: “dezembro é todo mundo querendo dar conta do que não deu o ano inteiro, inclusive eu”. Pois é, nada de novo no front.

Porque esse afã, muito embora hoje esteja ainda mais catalisado pelas redes sociais, não é novo. Fui criança nos anos 90 e, naquela época, existia um comercial feito em montagem paralela (um efeito cinematográfico criado por D. W. Griffith, aprimorado por Eisenstein e sua turma soviética, bastante usado para causar ansiedade na audiência — mas isso já é assunto para outra coluna).

Voltando ao comercial: nele aparecia um coral infantil começando uma apresentação, mas logo entendíamos que faltava alguém. Enquanto isso, em paralelo, um menino visivelmente atrasado, vestido com a mesma roupinha das crianças do coral, corria de bicicleta e passava por vários perrengues — como subir o escadão da 9 de Julho carregando a bicicleta — tentando chegar à bendita apresentação antes que ela acabasse. No final, é claro, ele consegue, mas chega apenas para repetir o final da música — “pra vocêêêêê” — e todo mundo se emociona.

Revi o comercial recentemente. Jurava que o que vendiam era a bicicleta (“não esqueça minha Caloi”, lembra?), mas não: era de banco — que, aliás, já nem existe mais. A fórmula é batida, mas funciona. Inclusive hoje.

Quando eu era criança, lá nos anos 90, além dos comerciais, assistia também a muitos filmes natalinos — era a melhor época do ano. Amava, via tudo o que passasse na TV. Meus pais afrouxavam a vigilância nessa época e também me deixavam ir ao cinema. Isso era muito especial. Na verdade, era o evento mais especial depois da ceia de Natal.

Todas as crianças do prédio iam juntas com alguma tia, ou com a prima mais velha de alguém, ou ainda com uma vizinha solteira disposta a aguentar a turba numa tarde inteirinha de cinema. Assistíamos basicamente a Trapalhões, Xuxa e Disney. Nunca vou esquecer como me emocionei vendo Lua de Cristal em tela grande.

Eram os anos 90, e os “melhores” filmes estreavam nas férias de verão — ainda é assim, só acho que meu conceito de “melhor” mudou um pouco.

Era uma época mágica porque o Cine Luz (cresci em Curitiba), um cinema de rua que ficava perto do Palácio Avenida — sim, o mesmo lugar onde o coral infantil canta até hoje — funcionava naquele prédio. Ali também existiu um cinema, que fecharam para virar outro banco. E este também não existe mais.

Dou voltas, mas prometo chegar lá.

Até hoje me lembro da pipoca (com bacon), das risadas, da (falta de) quietude naquele escuro do cinema. Nunca vou esquecer essa sensação. E, por mais que eu vá muito ao cinema hoje — por ofício muito mais do que por distração —, me vejo muitas vezes resgatando inconscientemente a menina que existiu naquele tempo-espaço.

Um dos filmes favoritos da criançada era Esqueceram de Mim, que além de se passar na época do Natal tinha Macaulay Culkin, ícone da nossa geração — que, por muito pouco, não enlouqueceu (Hollywood e seu eterno dezembro). Mas esse assunto definitivamente não é para hoje.

Hoje estamos falando de comerciais. E tem esse comercial atual, justamente estrelado por Macaulay, que deu um tempo na reclusão voluntária e topou aparecer (deve ter sido muito boa a proposta desse banco — esse que, por enquanto, ainda existe). Apesar de soar bem clichê, ele fala justamente de lembrar da criança que um dia fomos.

E é por isso que volto ao começo deste texto, esperando que agora faça sentido o meu pedido a você.

Porque, mesmo que sua infância tenha sido diferente da minha, tenho certeza de que você vai criar outras memórias ficando algumas horinhas por lá. (Aliás, será que aquela prima mais velha toparia um programa nostalgia?)

E talvez, quando sair da sala escura, ainda seja o mesmo mês — com suas urgências frenéticas —, mas você certamente já não será mais o mesmo.

Por isso eu te digo: vá ao cinema. Pode ser que você se reencontre por lá.