Tanta coisa aconteceu em um mês na esfera do audiovisual que não sabia por onde começar esta crônica… Perdemos gigantes (Brigitte e Maneco pesaram no meu coração), tivemos o cinema nacional em premiações laureadas, tivemos Wagner Moura e Kléber Mendonça sambando na gringolândia (o recifense, metaforicamente), e o mundo falando do molho do baiano – se tem um jeito de começar melhor o ano, desconheço.

Nesse sururu caudaloso, lembrei de uma lenda audiovisual brasileira que há tempos povoa meu desejo de exaltação: Helena Ignez. Ficou um pouco confuso? Calma.

Logo quando soube da morte de Manoel Carlos pelas redes, instantaneamente pularam no meu feed as várias Helenas. A partir dali, bateu uma nostalgia, porque desde muito cedo aprendi, pelas novelas, que Helena era a síntese do que eu gostaria de ser: forte, linda, inteligente, leal (especialmente a si mesma). Quando ia ao Rio de Janeiro na adolescência, me imaginava morando no Leblon, cabelos voando ao som de bossa nova… Felizmente, meu repertório evoluiu e conheci outras Helenas.

Mas, antes de falar da Ignez e do legado que ela representa, volto à Brigitte – que foi, de certa forma, um pouco como as Helenas de Manoel.

Bardot explode nos anos 50, ainda como símbolo de uma mulher sexualizada pelo olhar masculino, mas muito livre e solar – um ser movido pelo desejo, já não dos homens, mas o seu próprio. Helena também fez isso em terras tropicais: encarnou o ideal de uma mulher indomável, errática, que igualmente desafiava a norma e os comportamentos.

Ambas surgem dentro do cinema como figuras de ruptura frente ao feminino domesticado da metade do século passado: recatado, dócil, submisso… E é claro que ambas foram julgadas por isso, pois trouxeram seus corpos não só como aparência, mas os transformaram em discurso estético e também político. E como isso desagrada à turma conservadora…

Mas, enquanto Brigitte se cansa, cristalizando-se como mito da juventude eterna, resguardando numa cápsula do tempo a semiótica da sua beleza e contracultura, Helena Ignez se transforma como uma fênix – e fez isso muitas vezes ao longo de sua vida.

Manteve, e segue mantendo, uma trajetória alinhada à experimentação, ao feminismo, à crítica cultural e ao pensamento libertário, sem panfletarismo, inclusive na vida prática cotidiana. Perdoo os muito jovens que não sabem sua origem; vamos lá.

Helena Ignez Pinto de Mello e Silva nasceu em Salvador, em 1939. Atriz, roteirista e diretora de cinema, é figura-chave do cinema brasileiro. Sua carreira já ultrapassa 65 anos, com importância fundamental tanto no Cinema Novo quanto no cinema marginal e experimental. Foi casada com o cineasta Glauber Rocha, com quem teve sua filha Paloma; depois, viveu 35 anos com o diretor Rogério Sganzerla, com quem teve duas filhas, Sinai e Djin. Cito os relacionamentos (como sempre fazem com as mulheres) apenas para contextualizar que suas três filhas são sócias com ela em uma produtora cinematográfica.

E que, na última Mostra, ela participou de uma mesa debatendo a representação feminina e o poder da direção de mulheres na indústria cinematográfica; Helena segue altiva, articulada, apaixonada – foi inspirador assistir. Por coincidência, nesse mesmo dia, esperei meu carro de aplicativo ao lado dela e de Djin, que segue lindamente os passos da mãe, dirigindo, produzindo e atuando. Elas ainda carregavam a netinha de Helena no colo, que dormia. Não disse nada, mas fiquei consternada, contemplando aquele momento.

Eis que, na festa de encerramento da mesma Mostra, reencontrei as duas e não me contive: disse que tinha visto a cena singela e potente, emendando um abraço torto à fala: “Você, Helena… você é dinastia.” Ela sorriu e não falou nada – no entanto, agora me segue no Instagram. Fico envergonhada de contar sobre meu rompante fleumático aqui? Um pouco…

Mas é que, antes de sair por aí repetindo que Wagner tem molho (sabemos que tem), vá saber que ingredientes estão contidos nesse caldo – quem foi que temperou esse caldeirão, quem fez e faz o cinema brasileiro por dentro, mantendo esse fogo basal aceso desde antes, muito antes… Helena sabia (e sabe) responder de maneira bastante lúcida o que é que a baiana tem, a despeito dos ventos do norte.

Queria que você (re)descobrisse essa mulher, leitor… Postar meme do samba é legal, reforça nosso senso de identidade, mas vá assistir também A Mulher de Todos, Belair, A Moça do Calendário – para entender que temos Helena e temos também (ainda bem) a dinastia de pertencimento que ela nos trouxe e traz. Garanto: você vai se apaixonar – ou, caso já seja um convertido, reafirmar seu amor a plenos pulmões.

Evoé, Helena!